quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Chagall


Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de Minha Função:
Escondido Atrás do Muro do Pensamento.


Gostaria de dizer muitas coisas
com poucas palavras.
Palavra demais é como erva daninha no pensar.
Perde-se a função.

Mas aguardo.

Espero a refinação do tempo.
Espero o vento que levantará
as cortinas da vista, do olhar, do ver.

Nunca me pensei poeta.
(isto seria doença)
A vida me germinou homem
e estou a acostumar o verde em mim
conforme as estações.
Pois o dia em que houverem frutos,
surdos quero que sejam os meus pensamentos,
natural a visão de simples sentimentos,
desnecessária a contagem das horas.

Ora bolas.
Gosto de fogueá-la.
Gosto de deixá-la louca...
Gosto de beijar com língua a Palavra,
devagar levantar sua lavra
para umedecer a quente poesia na boca.

Escondido atrás do muro do pensamento,
longe dos olhos da razão.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Portinari


Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de Minha Função:
Sonho


Há quem leve sonho
como pedra pesada na mochila do peito.
Há também quem leve sonho
como vela trêmula em meio ao vendaval,
ou um pouco d’agua equlibrada na concha da mão.
Em outros a concha segue oca.
Como sonhos são leves
e vem e vão,
prefiro levar sonho
na qualidade de mel no céu da boca.

Deguste o teu sonho.

De fato o que proponho
e não invento,
pois pela vida, por si só,
já está posto,
é a caminhada na estrada sem fim de caminho
com o sol do sonho aquecendo o rosto.
Assim seja.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

van gogh

Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de Minha Função:
A Boa Palavra.



Palavra Boa nasce na boca
como o Jasmim Maçã:
Bonita, simples, nunca vã.
Vermelha de possibilidade.

Palavra Boa remexe
e as vezes me acorda de madrugada,
como criança que pede acolhida
no conforto sonoro da língua falada.

Palavra Boa é mesmo criança
e é flor também, porém matizada.
Um dia de noite é escrita, dorme.
Na manhã seguinte amanhece amanhecida na fala, acordada.

Quando colho palavras boas
no pé de Jasmim Maçã do meu peito
retorno para casa sem sair do lugar.
É minha Senhora a palavra boa,
nela reconheço meu apreço pela vida que soa
como um canto de pássaro liberto
que na palavra boa fez promessa de ninho,
com um canto bem simples de carinho,
prometeu nunca deixar de voar.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Gauguin


Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de Minha Função:
No Norte, Na Beira do Rio de Iara.



No dia em que me encontrei com Iara
estava a tarde morena…
Ela transpirava a água de rio
e a doçura da água doce habitava no seu olhar.
Os cabelos fartos, muito negros,
os seios pequenos,
ondulações no andar.

Igarapé silencia
para Iara nadar,
coisa rara.

Eu estava no alto da rocha
e admirava o feitiço.
Sou mestiço,
entendo dessas coisas de pele que brilha.

-- Iara é misteriosa.
(Me disse um dia o Matuto)
-- Trabalha debaixo d’agua.

Eu estava só.
Quase Nada reinava nas matas.
Iara veio vindo, vindo, vindo…
Cantava uma canção longínqua
de tempos que moram no fundo da gente, escondidos.
Olhei dentro de seus olhos doces,
era um par de esmeraldinas:
-- Ah Iara, me leve…
Ela pousou seus dedos molhados em meus lábios,
assoprou em minha face entregue…

Acordei na beira de uma cachoeira
sonhando em palavra:

-- Me leve Iara, me leve…

segunda-feira, 20 de julho de 2009

George Grosz


Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de minha Função:
A Seca.


Bati forte o pé no chão e encarei.
Seu olhar de caracol,
seu jeito parede caiada de ser.

Vi sentindo de longe…

A nuvem de poeira,
advinda do sul,
sussurrou em mim:

Tempo há de voltas e revoltas
no corpo circular da natureza.

A Seca.

Secou tudo ao redor
e um bicho furioso baforou
a esperança para as distâncias.
O Horizonte era só mais um,
sem caminho.

Que falta de carinho com a vida.
Andas, andas e caminhas para a cova
com a felicidade de também virar pó
e integrar-se ao todo.

Chorai olhos secos.
Aonde a mão emudece à calo
e a prece cega à olho ralo,
onde a seca carrega a vida
é preciosidade falar em caminhada sofrida,
lugar comum falar em revolta.

Vá lá.
Veja.
O olho, a mão, o peito e o pé racham.
O você mesmo nunca mais volta.

O pó desta terra de terra abatida
não desprega da foto imagem do pensamento.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de minha Função:
A Roda da Fortuna


Desce
Desamanheceu em meio ao meio dia claro.

Claro que não abaixei a guarda.
Mesmo que arda a mente,
quem sabe e sente
pressente o inevitável:

Percorrerei meio mundo
para reencontrar a primeira aldeia, a minha.

Enterrarei meu ser terra à dentro
para apreender a luz.

Trarei a goela em seca
para recriar a fluência líquida da fala.

A bolsa da barriga vazia
para preenchê-la do mais bruto mel de vida vivida.

Sobe

Parei em frente ao umbral do casebre de sapê
e a rachadura no chão me levou
para onde a respiração preenchia tudo.

Não demorei a reconhecer...
A Mulher na rede sentia as dores de menino.
Perguntaram:
-- O forasteiro sabe arrancar criança pro mundo?

Bom, pensei,
coisas da natureza não se brincam de conhecer,
nasce sabendo, não sabendo o por quê.

Guarneci o medo com minha espada de corte
e roguei,
junto à rede e seu ranger,
que a vida fosse forte.

Acalmei a mulher.
Dei-lhe versos para beber,
poema quente à testa para acalentar,
rima ritmada para respirar
e firmeza para ver.

Em um quarto de tempo
se deu o parto
e o quarto do casebre estremeceu com o choro.

A Mulher chorou...
Chorei também.

A alvorada do homem
que a tudo pensa que consome.
Somos parte e isto é tudo.
Somos sobretudo
esta fagulha frágil,
esta folha verde de caminhos ramificada,
esta vela trêmula no altar da sabedoria,
esta poesia por escrever.

Olhei aquele broto de gente...
Não tem como dizer o que se sente.
A roda humana continua e o importante é continuar.
Todos nós podemos um dia
descobrir que há poesia
no simples fato de viver.

E saber que a grande sabedoria é nunca deixar de aprender.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Tracila do Amaral

Eu Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de Minha Função:
C’afé do Dia.

É manhã.
Típica na cidadezinha do interior.
No seu interior
o casebre antigo,
o chão vermelho de cimento queimado,
a parede descascada de emoções já sabidas,
o fogão à lenha
e o Café do Dia.

A falta do pai…
este saiu antes do sol para colher o Café
junto a muitos outros;
continuam no ofício de traduzir em força o cio da natureza.

Reza sem palavras a mãe, com o fruto choroso ao colo.
Através do umbral seco
vê a filha junto a brasa do forno,
atrás um quadro de Jesus no Horto das Oliveiras
iluminado pela réstia calma de sol da manhã,
a qual torna brilho o delineado contorno desmanchado no ar
que a tudo envolve e conforta.

É só mais um dia…

O Café do dia, seu gosto e cheiro,
está presente como alguém familiar que fincou raiz na saudade.

A filha sintoniza o rádio.
Tudo que é simples e humano está ali como desabrochado,
até o descascado da parede caiada
parece dotado de sei lá o quê que me desbota o peito.

Lá dentro de mim
também estou descascando.
Estou indo e estou ficando,
também sou fumaça
e no meu canto também côo minha fervida poesia.

A filha traz o café
adoçado com fé.
C’afé de todo dia.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Matisse

Lancei meu laço esperança no horizonte.
Dei-lhe um nó apertado,
destes cegos,
pois justamente foi preciso muita cegueira
para ver a linha do horizonte que laçar queria.
Tive a ajuda de minha Santa, Senhora Santa Luzia
e perdi a conta da corda,
esta que se chama desejo.
Perdi também a conta do peso da corda que sobrou,
cujo nome é desejaria.

Sentei à beira de um rio de estradas
e matutei vendo ao longe:

Se fosse ave
traria o pensamento arejado de ar.
Se peixe fosse
traria a palavra molhada de mar.
Se acaso em planta me arborizasse
traria verde o sentimento de terra.

Hoje entendo meu amigo,
o menino Mathias,
o qual via aventura no broto
- coisa besteira.
Assim dizia:
“Veja, veja!
explodiu uma flor na roseira…”

Tem gente que amanhece todo dia.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Chagall

Eu Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro
No Ofício de Minha Função:
A Minha Volta.



Sou uma prova viva
de que as coisas são assim,
mas podem ser diferentes.

Latentes estavam em mim
o comodismo empoeirado,
a insatisfação em nata bolorenta
e o dom de saber deixar tudo como está.

O que não estava esperado
me desesperou num sol de meio dia:
A poesia me invadiu com raios de verão
e meus olhos foram trocados por outros;
adquiri olhar de gesto
e meu gesto no mundo se formou,
revirou em olhar de função.

Por ser algo tão rico de simplicidade
uma cachoeira se formou
e tudo o que não era eu,
era necessário.
O cotidiano, o calendário, a casa, a cidade,
era outra a realidade e precisava seguir.

Hoje quando vejo uma flor bonita,
meu Deus que isso sempre se repita,
meu pensamento é sorrir.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Tarsila do Amaral

Eu Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de Minha Função:
O Homem Cabeça de Martelo.

Apeei da função estradeira
as seis horas de uma tarde amena.
Estava eu a procura de um aconchego
quando passou por mim
o Homem Cabeça de Martelo.
Exasperado procurava uma bigorna.

Sua testa era como a textura de um lago
ferido por uma pedrada.
Estava com o pensamento enrugado.

Agoniado vagava atrás de um problema.
Porque gente cabeça de martelo não vive sem problema.
Seus olhos rasteiros farejavam por toda parte
algum defeito, erro ou descuido para criticar.
Com sua incapacidade de observar querem,
a todo custo,
dar marteladas na cabeça de qualquer um que passar.
Sem crise não há viver.
Sem problema não há o que fazer.
Sem guerra não há paz,
algo não está no lugar.
Com o pretexto de ajudar metem o bedelho em tudo,
martelando o que é e o que não é,
o que tem que ser.
Martelam o que você tem que ver, falar, como proceder
e o pior, o que pensar.

Desembainhei minha poesia espada de corte.


Olhou-me com o seu raio x ocular
procurando onde martelar.
Disse-lhe:
-- Achas que sou um merda?
Ao que respondeu:
-- Acho!
Argumentei altaneiro:
-- Pois saiba que sou um penico cheio!
Lançou-me uma triunfal gargalhada
e através desta porta,
antes fechada,
inseri minha poesia espada de corte:

Homem Cabeça de Martelo
antes martele seu elo com a intolerância.
A instância do viver cabe a cada nariz.
O importante é compreender e batalhar para ser aquilo que se diz.
Martelar o erro dos outros e ser cego para os seus?
A ninguém cabe brincar de Deus.
Não construa sua casa estabilidade
no alarde da crítica do erro alheio, no descuido.
Não faça da austeridade seu escudo
e do ataque o seu meio de ser o que é.
Sejas por inteiro.
Sejas acerto e erro.
Sejas humano da cabeça ao pé!

Nunca mais o vi.
Embrenhou-se mata à dentro.
Dizem que enraizou penas
e brotou passarinhos no olhar.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Samico


Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de Minha Função:
Fome


Fogueada e ácida fome
que emprenha minha pobre gente
em sua gestação de miséria.
Verminose séria que auto consome,
carcome as vísceras em uma guerra muda.
Surda terra tragando o ser que criou para consumo.
O sumo do homem que sobra.
Resultado de uma macabra máquina.

Olhe para o exército descomunal de gente virando bicho
e de bicho que pensa, pensa, pensa que é gente.

Rachou o chão, a mão, o pé e a mente.
Rachou o órgão fibroso:
um saco de veias a sangue quente.
Rachou a esperança num sol de Março,
rachou o braço na labuta do ser no fio fino do facão da fome.

Não tem nome este holocausto?
Não tem rosto este genocídio?
Não tem fim esta espada.

Mandem abrir a porteira da fome,
meu povo não é manada.
Minha gente é enxada cega a bater no seco chão da estrada.

quinta-feira, 7 de maio de 2009


Eu, Cavaleiro Andante
Poeta Estradeiro
No Ofício de Minha Função:
A Estrela Matutina

Gosto de sentir o vento da mudança
acarinhar meu rosto.
Gosto do gosto, do cheiro
e até do frio arrepiante do vento da mudança.

O Brilho da Estrela Matutina…
sempre te verei com candura flor do céu;
seu véu etéreo, sua magia sem rodeios,
seu firmamento sem mistérios.

Segue-se minha caminhante função
e de ante mão trago o peito na boca
diante a magnitude de seu olho brilhante.
É nele que confirmo:

Meu toco de lápis é a enxada com a qual capino o roçado das possibilidades.

Em muitas cidades terra batida de dureza,
ouço a rudeza de homens secos em botão,
então miro em ti o ver,
Quase Nada vem brincar em minha retina
e a minha poesia espada de corte ceifa o azar ou sorte
abaixo de ti, Estrela Matutina.

Ajude-me Graça Mitológica
firmada no Trópico de meus devaneios tropicais
no incandesceste brilhar das manhãs.

Sou homem rude e tosco, mas me enrosco que é uma beleza
quando a seiva é poesia.
Sou assim como um cipó:
Começo de rasteiro,
subo lento pelo corpo lenhoso de sua linguagem ramificada
e na copa elevada dou um nó.
Só para ficar no alto do pé de poesia,
sentir o acarinhar do vento da mudança
e apontar minha lança direção em ti,
Estrela Matutina.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Portinari
Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de minha função:
Quando reparei em quase nada.



Estava no fim de uma estrada poeirenta
com quarenta de sol e zero de forças.
Minha montaria tremia.
Com a vista embaçada
pouco distinguia o que via
na dança sinuosa do vapor no horizonte findo.
Minha poesia espada de corte
parece não ter valor.
Perdi a graça, pois virei um mendigo das coisas vãs.


A poesia é uma esmola para alguém como eu :
um ceguinho de vida.


Foi quando senti algo se enroscar em minhas pernas.
Vi e não acreditei.
Era um cãozinho preto
com uma bola branca no olho direito,
magro como um broto de bambu,
pequenino como um tatu
e o pêlo rarefeito.


Pela carcaça tão miúda ...
pelo pouco que era sua figura ...
resolvi que pela sua envergadura
deveria o cãozinho receber a alcunha de Quase Nada.

Hoje Quase Nada anda comigo a todo instante.
E quando me falta a guia motriz de minha andante função
é só olhar para Quase Nada
que meu ver adquire renovada visão.

No final das contas Quase Nada é tudo que tenho
e é minha riqueza.

No fim desta caminhada
quando a estrada me faltar,
não por querer,
mas por não conseguir mais caminhar com minha montaria,
quero ter o conforto
de saber que fui o Poeta Estradeiro
que fez de seu picadeiro
o palco iluminado para as coisas simples e ínfimas da terra.
Não sou vagabundo,
sou guerreiro que vê no conforto da simplicidade
a salvação deste mundo.

Quase nada me adotou para seu protetor e mensageiro.
Assim afiei minha poesia espada de corte
no primeiro raio de sol que brilhava ao norte
como uma tocha, um imenso candeeiro.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Samico

Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de minha função:
A Caninana.



A Caninana serpenteia
feito um ser humano
e arma seu bote.
Note como ondula
o sacerdote que insinua aquilo que quer não querendo.

A Caninana entre sensíveis folhas se perdendo,
entre terras molhadas que vão cedendo
entre bocas, olhos, peles e sexo fumegando,
atiçando o fogo selvagem... seu veneno…

A Caninana enroscada,
enrolada em raiz de árvore profunda,
astuta em seu movimento sorrateiro
na lama pegajosa, vantajosa por ser da lama e ser uma jóia.

Caninana por detrás de sua flor em chamas
chama a atenção dos pobres miseráveis de vigília.

Quem me guia é minha reta,
minha seta me poesia,
minha alvorada me diz:

Siga.
A espreita que te acompanha,
a peçonha que te aguarda, a mata onde se esconde,
revela-se grande para quem se surpreende.
Há coisas que se vê e não se fala,
ou que se fala, mas não se vê.
Há coisas que se ensina,
outras deixa-se aprender.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sebastião Salgado

Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de minha função:
Nos interiores.

Andando pelos interiores
Do pós-moderno Brasil colonial,
desgostei-me demais com tudo
como um suor que arde a olho nu.
Como um cavalo com carrapatos no ouvido,
sinto-me sem remédio.
É sério ver o mundo descampado
e se sentir algemado pela realidade.
Nesta terra de terra batida
até a imaginação foi amordaçada,
até a última lágrima secada a ferro
e poeira de estrada.

Sabe-se muito pouco…

Eu Cavaleiro Andante por função e sina
trago em minha sacola a bem aventurada esmola de Deus:
A Possibilidade.

Em minha estrada de terra abatida
trago o meu sentido de vida:
Sacolejar o ser humano.

Em minha ferida de sangue entreaberta
trago um brilhante espinho:
O olhar-sentir para tudo,
tudo que chora à mão fechada,
tudo que canta à mão aberta.

Eu quero é que chova sol no nosso caminho.

sábado, 14 de fevereiro de 2009


Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de minha função:
Nas cercanias do Norte.


Exercitar a poesia
é nos plantar em semente.

Vendo uma noite que engolira meu caminho
fiquei a matutar estrelas ao longe…
Minha espada de corte,
minha poesia sedenta de sei lá o quê,
chamam de vida.
Esta mesma vida multicolorida sem sul nem norte,
esta mesma espada de corte,
a qual afiamos e nos cortamos
e seguimos sempre ficando.

Aqui neste mundo onde sou Deus,
posso testificar que na coroa de Antonio Conselheiro
haviam asas,
que a Cobra Caninana aguarda o bote
por detrás de uma bela flor em brasas,
que o olho cego de Lampião
possuía luz de balança
e tudo que é felicidade demais
não só não existe como cansa.

Aqui neste mundo onde sou o Diabo
onde eu toco nasce flor;
no chão, parede e céu azul.
Poderia fazer flor no bico de uma garrucha,
mas com ela prefiro dar um tiro no peito do homem
e nesta ferida sim…
insiro minha poesia espada de corte.
Da ferida faço brotar jasmim.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009


Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de Minha Função:
Reflexões Diurnas.



Sei o quanto é difícil me aturar.
Compreender este fogueamento,
esta inconstante inquietação
Fisicamente simbólica.
Sei, sou um imbróglio na vida de qualquer um,
um fardo de pedra calcária e ferro.
Parece não, mas até para mim;
é um sacrifício conviver comigo.

Porém, pense bem:
No desenvolvimento da evolução
o sacrifício é um ponto culminante,
um ponto chave.

Desta maneira quando chegares lá na grande porteira,
frente ao grande Porteiro
e começarem a recitar seus pecados mais escabrosos,
quando tudo já estiver perdido,
então seu Anjo da Guarda dirá:
-- Mas ele conviveu e aturou o Cavaleiro Andante,
o Poeta Estradeiro, o Heterônimo Anônimo!
Daí ouvirás um profundo OH!… à sua volta
e verás brilhar um sorriso no semblante do Divino Porteiro:
--Entra Fulano que o Paraíso é teu!

Clarear-se-á tudo.
Trombetas ecoaram em festa pomposa,
as Anjinhas bailaram um Can Can na grande abóbada superior,
lá no cocuruto celeste.
Será servida a pinga mais divinal e milagrosa,
benzida pelo Próprio,
e trará em seu rótulo venturoso,
escrito em letras garrafais, douradas como o mel,
o desfecho de vida tão cheia de sacrifícios mortais:
Caninha milagrosa “Deus é Fiel”.

Nesta terra de terra abatida, vale a pena viver seus ais.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009


II


As imagens de Cristo Martirizado na parede
verde descascada,
junto a de Santa Maria Madalena,
de gesso, roxeada,
anteparada por um altar antigo...
iluminada por uma vela em toco,
fizeram-me pensar em Nosso Senhor.

Que era puro e imaculado,
isto é dogma consagrado,
não tenho dúvidas.

Mas e aquele olhar adocicado de quem quer bem?
Aquele sorrir envergonhado
em meio do emaranhado cabelo
ajeitado atrás da orelha?
O conforto de um abraço ao fim do dia,
um cafuné sem pretensão,
aquela mão esquecida em cima da outra?

Oh meu Deus
com o perdão das palavras,
mas para ser Deus por inteiro,
para ser Deus verdadeiro,
e eu sei que és,
Não há como o Senhor não ter sentido
o bichinho trigueiro
do amor companheiro e o seu revés.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Di Cavalcanti

Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de Minha Função:
Nos Braços de Madalena Flor.



Uma réstia de luz amarelada
escapou por entre uma velha telha quebrada
e veio brincar chamego no ventre de Madalena Flor.

Era como pintura…

Mas se caso pintura fosse, não seria,
pois não haveria pintor a altura, ou consagrado,
capaz de delinear tão belo traçado
do corpo na réstia
frente a janela aberta para o céu azulado.

As vezes a vida desabrocha
e espalha como pólen
mil caminhos a percorrer.
Basta apenas não olhar,
Basta apenas ver.
Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de Minha Função:
O Encontro com Madalena Flor.


Pelas bandas da Ponta das Alagoas,
aproximei-me de mim ao fim da tarde
chegando a um bar rameiro
atrás da água benta que no descer arde.

Mas o Tatu por detrás do balcão
era tão usura,
que coitado,
de amarelo tava verde o desgraçado.
Negou a caridade.

Porém, como estava eu no ofício de minha função,
desembainhei minha poesia espada de corte
para aqueles bando de Zé Diabo do Cão:
Subi a montaria numa cadeira velha
e desferi um poema de Catulo da Paixão,
O Cearense.
(Foi um corte profundo, modéstia à parte).

Imaginei que daquela arte
receberia uma prenda.
Ledo engano,
ali a coisa tava feia,
ninguém tinha vintém.
Para piorar, o Tatu, dono do bar, detrás do balcão
ainda me olhou com cara de “nem vem”.

Foi quando avistei no fundo, amoada,
a princesa talhada para os meus sonhos.
Chamou-me.
Fiz-me presente.
Perguntei-lhe o motivo da tristeza.
Abaixou a cabeça.
Notei sua saia molhada,
Disse-lhe:
-- É problema de xereca arriada.
(Xereca arriada é quando a mulher não segura o mijo, coitada)
Ela chorou, pediu a cura.
Passei-lhe a receita de Sigmund Freud:
Duas a três carrapetadas diárias durante sete dias.
(homeopatia caseira, certa validade).
Perguntou se eu sabia fazer o remédio direito.

--Morena fui feito para a caridade!

Pedi o seu nome,
ela respondeu serpenteada:
-- Me chame de muié
Que eu te chamo de homê.

Ê vida desabrochada!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009


Eu, Cavaleiro Andante,
Poeta Estradeiro,
No Ofício de Minha Função:
Beirando Rios.


Caminhava há tempos
e o calor me apertava as vísceras.
Minha montaria rachara,
o sangue escorria pelos calos ao fim do dia.


Com muita alegria cheguei a um rio:
Água doce,
vento doce...

Aproveitei:
banhar-me e cultivar a boniteza,
pois não há flor que não seque
ao sol do meio dia,
nem poesia que se revele
sem o toque do movimento.

Água doce,
vento doce…

A natureza compôs, para mim,
Um poema em acolhimento.

Pela graça
fico agradecido.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009